A vida de um corretor de imóveis

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Por Fabrício Muriana*

Banco Imobiliário (2015), do diretor Miguel Antunes Ramos, é um documentário com inesperado foco nos trabalhadores que compõem o mercado imobiliário da região metropolitana de São Paulo. A escolha do filme não nos permite generalizar que toda a produção imobiliária brasileira se dê nos mesmos moldes, mas mostra uma fotografia que permite entrever mecanismos que se repetem em diversas regiões metropolitanas do país. Nas falas dos entrevistados – de longe o maior achado do documentário – apresentam-se mecanismos e dispositivos utilizados pelo mercado imobiliário (e sua pequena pluralidade de vozes) na produção de cidade. E é exatamente nesta produção que se apresenta a principal alienação destes trabalhadores.

–> A exibição do filme no auditório da FAUUSP foi adiada para o dia 2 de junho (quinta-feira), às 17h. A sessão será seguida de debate com o diretor e os professores Guilherme Wisnik e Luciana Royer.

Um comentário sobre este filme nos convida a produzir o mesmo tipo de exercício crítico empregado na sua elaboração. Ao invés de idiotizar as falas dos entrevistados ou torná-los marcianos, o documentário apresenta estas falas como verdades que partem desses trabalhadores. O ponto de partida são algumas perguntas tais como de que forma operam estes trabalhadores? Quais são suas práticas? Desde o “corretor de prospecção” (ou a pessoa que compra imóveis na cidade); passando pelos trabalhadores das maquetes que projetam um futuro, um sonho (nas suas palavras); os administradores que planejam o processo, os corretores que vendem sonhos de uma cidade privatizada, e até mesmo alguns moradores abordados pelos membros desse mercado; afinal, em que acreditam todas estas pessoas para fazerem o que fazem?

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Com enormes planos de maquetes em 3D, visitas a stands de apartamentos decorados e falas que revelam a precariedade dos tipos de empregos, parece interessante fazer o exercício de ler nestas falas uma espécie de tratado filosófico ou uma letra de Adoniran Barbosa. Não chegam a ser atos falhos – o que talvez seja ainda mais assustador –, mas, ao comentar sobre seu cotidiano de trabalho, verificamos que existe uma relação de consequência para estes trabalhadores de que há um mal necessário na produção imobiliária, a saber: pessoas terão suas casas demolidas, apaga-se boa parte da memória das cidades, produzem-se ilhas de falsa segurança, capturam-se sonhos de modos de vida mais confortáveis, tudo isso em nome da produção de cidade (embora estes trabalhadores não o vejam, nem o nomeiem desta forma).

“Estamos aqui realizando a realidade de fato”, “não é uma imagem, vendemos sonhos”, “a gente tem que obrigar a pessoa a ficar feliz”, “a imagem do futuro é uma cidade toda edificada” são frases que, em qualquer outro contexto, mais pareceriam uma obra surrealista de um futuro distópico, no entanto, são a “realidade de fato”, representam a liberdade deste mercado de produzir modos de vida.

Não parece ingênua a escolha de não mostrar sequer uma fala ou um entrevistado que trate das condições de trabalho no canteiro de obras. Quando vemos uma demolição, o plano coloca as máquinas como uma espécie de autômato, um ente com vida própria, tal e qual no imaginário das pessoas que compõem o mercado imobiliário. Havia uma igreja no meio do caminho, e todo o sonho de um quarteirão inteiro que poderia se tornar mais um condomínio clube se torna uma realidade irremediável de casas que permanecerão como estão.

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Na voz de um corretor que guarda extrema semelhança física com o ex-prefeito, ex-ministro das Cidades e ex-corretor de imóveis Gilberto Kassab, somos levados a conhecer o cotidiano de quem negocia terrenos. “Casa alugada é melhor” ele afirma, “tem sempre valor sentimental quando se mora” numa casa, o que, claro, é um entrave à liberdade do mercado. “Não tem nada que não se vende, não tem nada que não se compre”, complementa outro “corretor de prospecção”, e conclui que “dinheiro não recebe desaforo”, antes de apresentar um enorme terreno na franja da cidade, onde no futuro possivelmente serão construídas unidades de imóveis com subsídios do programa Minha Casa Minha Vida.

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Dadas as perguntas que guiam estas reflexões dos entrevistados, muitas das falas têm caráter explicativo, tais como “especular é fazer um sonho virar realidade”, resposta de outro trabalhador deste mercado na tentativa de explicar o que é especulação imobiliária.

Há uma escolha formal de não apresentar nomes nem empresas destes trabalhadores, mas verificamos no canto de uma tela ou no meio de um comentário a citação a PDG, Tecnisa, Odebrecht Properties, entre outros atores com CNPJ e investigados pela Lava-Jato.  A Odebrecht conta com uma funcionária que apresenta o sonho da empresa para todo um setor do Butantã, bairro de sua sede. Sonho que vem acompanhado de uma estratégia de produção de um Food Park, que claramente ela vê como melhoria da qualidade de vida naquela região. “Aqui você tá fazendo um bairro e produzindo um condomínio dentro do bairro”, deixa escapar um treinador de corretores, que explica como apresentar o caráter exclusivo do empreendimento que deverão vender.

A captura de sonhos, fica claro no documentário, passa pela captura da privacidade. Quando alguém escreve gravidez num email, contando a boa notícia, não importa se escreve “gravidêz”, “gravidês” ou “gravides”, até mesmo os erros de português já estão mapeados por equipes que produzem campanhas com base em palavras, e, claro, a esta pessoa aparecerão anúncios com o sonho de um apartamento maior, onde o bebê poderá crescer como uma criança de condomínio. “O marketing faz um trabalho rigoroso e científico”, “15% das nossas palavras vêm com erros de português”, dirá um outro trabalhador, que mais parece estar argumentando num congresso sobre seu paper recém-apresentado à comunidade científica.

Das condições materiais desse mercado trata-se muito pouco. Um dos entrevistados comenta rapidamente sobre a criação das IPOs (abertura de capital), lá entre 2006 e 2007. Sabemos que não se produzem unidades de Minha Casa Minha Vida sem o alinhamento dos planetas entre governo federal, municipal, Caixa Econômica Federal e outros agentes. Talvez estas sejam as frestas abertas para um outro documentário, que trate de uma estrutura mais alta, inobservável por esses trabalhadores, mas sem a qual esta realidade se dissolveria no ar.

Tudo em Banco Imobiliário transita num universo de absurdo cotidianizado, e não é possível explicar a condição de possibilidade deste absurdo sem comentar sobre a relação de alienação desses trabalhadores. Diferente da alienação da linha de produção fordista, em que o apertador de parafusos não sabia como seria o carro no final do processo, tampouco poderia comprá-lo, a alienação de quem trabalha no mercado imobiliário passa por saber qual é o resultado na escala micro e ignorar o mesmo resultado na escala macro.

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Quando perguntados sobre o que é cidade, parece não haver nada mais abstrato e intangível para essas pessoas. A autojustificação passa por argumentos econômicos, geração de empregos, quantidade de metros quadrados e consequentemente de lucro produzido. “Eu nasci para trabalhar no mercado imobiliário”, dirá um corretor, como se fizesse parte de alguma corporação de ofício. Fica, no entanto, a questão de quem nasceu para (sobre)viver na cidade que é produzida em consequência do trabalho dessas pessoas.

*Fabrício Muriana é formado em Filosofia, mestrando do Programa de Mudança Social e Participação Política da EACH-USP e integrante do Núcleo de Democracia e Ação Coletiva do Cebrap.

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Um comentário sobre “A vida de um corretor de imóveis

  1. Pude assistir o documentário 2 semanas atrás, quase um filme de ficção eu diria (!), é fascinante se pode ser fascinante ficar-se petrificado diante de uma cobra, ou cobras, prontas para dar o bote! Fabricio conta bem o que é o excelente trabalho de Miguel Antunes Ramos, mas o melhor é assistirem ao documentário. Ele se fecha numa fala de uma funcionária da Odebrecht…. preparem-se para conseguir relaxar seus corpos depois de tanta tensão e as dores advindas ! Escrevendo aqui ainda as sinto semanas depois

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