São Paulo, memória e testemunhos periféricos

 * Danilo da Costa Morcelli |

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Igreja Nossa Senhora dos Homens Pretos da Penha (séc 19). Foto: Danilo Morcelli

As regiões periféricas da cidade de São Paulo são normalmente vistas como recentes do ponto de vista histórico, ignorando todo um amplo passado com suas diversas dinâmicas e seus variados testemunhos. Além de errônea, essa visão é também perversa, implicando na noção de uma cidade sem memória e sem história, que pode ser destruída e reconstruída levianamente, de maneira muitas vezes descontínua, desconexa e descontextualizada, sem uma reflexão coerente sobre seu passado. Isso ocorre sob a ótica do progresso e mirando uma questionável “modernidade”, que se torna ultrapassada em um curto período de tempo.

Somado a isso, nas periferias da cidade existem marcantes delimitações e contradições: núcleos históricos consolidados contrastando com habitações precárias, ocupações caóticas e recentes do ponto de vista histórico, marcadas pela disputa pelo espaço, por certa transitoriedade, pelo provisório, improvisado e inacabado.

Essa noção de cidade faz com que seus habitantes desconheçam seu ambiente urbano e não se identifiquem com este, tendo em vista, sobretudo, as contínuas transformações e a velocidade das mesmas.

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Ruínas do Sítio Mirim (séc 17), em São Miguel Paulista. Foto: Danilo Morcilli

A região leste da cidade, no entanto, possui testemunhos que sobreviveram a essa São Paulo que se reconstruiu por diversas vezes. Restaram patrimônios que remetem da colonização europeia (século 16) até momentos posteriores à industrialização, já no século 20. Destacam-se as antigas capelas coloniais, como a capela de São Miguel (século 16), bem tombado mais antigo da cidade, e a de Nossa Senhora da Biacica (século 17), transformada em moradia no início do século 20.

Outros exemplos são as igrejas da Penha (século 17) e dos Homens Pretos (século 19) e diversas estruturas industriais do início do século passado. Sem esquecer, claro, dos casos emblemáticos da Casa Sede do Sítio Mirim (século 17), cujo tombamento em âmbito municipal, estadual e federal não garantiu que a casa não entrasse em estado ruinoso. Ou mesmo o Engenho do Sítio Piraquara (século 17), que foi tombado, destombado e conseguintemente demolido.

Esses são alguns exemplos de bens que muitas vezes ficaram esquecidos do ponto de vista das políticas públicas, ou mal assistidos, até que o interesse político-econômico do momento os ameace e reivindique para si o seu espaço, a despeito da existência dos instrumentos de proteção. Apesar de soar desolador, diversas ações recentes têm culminado com resultados positivos, sobretudo iniciativas comunitárias, como intervenções, saraus, ocupações, debates e mapeamentos.

Hoje, há maior preocupação e articulação por parte da população das regiões periféricas na identificação, preservação e construção da memória, culminando com a criação de diversos coletivos, movimentos e iniciativas dedicando-se ao tema, como o Grupo de Memória da Zona Leste. Além do mais, movimentos sociais consagrados, como os de moradia, educação e saúde, têm se preocupado com a construção e manutenção de sua própria memória.

Ações como os Seminários sobre o Patrimônio Histórico da Zona Leste, com suas três edições ocorridas em 2014, e as Jornadas do Patrimônio na cidade de São Paulo, com relevante penetração nas periferias da cidade, em sua segunda edição neste ano de 2016, são de extrema importância para a manutenção da memória da cidade e para que a comunidade conheça seu patrimônio, entenda sua importância, e assim o reconheça.

Na própria dinâmica de São Paulo há um processo de contínua destruição e reconstrução da cidade ao longo dos séculos, implicando a ideia de que tudo é novo e passível de ser substituído. Leonardo Benevolo, arquiteto e historiador da arquitetura, faz uma importante observação ao prefaciar o livro de Benedito Lima Toledo, “São Paulo: três cidades em um século” (2007) – que retrata bem a primeira frase deste parágrafo: a cidade de São Paulo transforma-se tão rapidamente “a ponto de apagar, no espaço de uma vida humana, as marcas da geração anterior”. Em função da rapidez das transformações, as lembranças são mais duradouras que o cenário construído, e não encontram nele um apoio e um reforço. As transformações são de tal ordem que as memórias não encontram um “suporte”.

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Ruínas do Sítio Mirim (séc 17), em São Miguel Paulista. Foto: Danilo Morcilli

Pensando nisso, nos reunimos em um coletivo formado pelo Ateliê Azu, que realiza uma série de intervenções urbanas com painéis de azulejo, com o pesquisador de tecnologias Eduzal e o Grupo de Memória da Zona Leste, com o intuito de instigar as pessoas a conhecer o patrimônio da cidade, em especial das periferias.

Escolhemos trabalhar com uma plataforma colaborativa que, através das redes sociais e da tecnologia, unisse o mapeamento virtual de bens culturais e painéis temáticos com QRCodes instalados junto a pontos históricos da cidade que tenham poucas informações disponíveis, sejam imóveis, obras de artes, feiras ou manifestações culturais singulares. Com isso, além de encontrar informações sobre esses locais, os visitantes têm a possibilidade de compartilhá-las nas redes sociais, fazer check-in, postar imagens, sugerir novos locais ou edições, além de seguir um roteiro de visitação do patrimônio paulistano.

É uma forma que encontramos de divulgar os atrativos urbanos dos bairros periféricos, incentivar visitas a esses locais, em um turismo em que as pessoas sejam parte do processo e não meros clientes, e fortalecer os coletivos e detentores de saberes presentes nesses territórios, incentivar e fortalecer o comércio local, além de realizar uma intervenção urbana que instigue as pessoas a conhecer mais sobre o bairro e a cidade.

O projeto se chama “+CulturaSampa” e foi contemplado na segunda edição do VAI-TEC, um programa de apoio à inovação da Prefeitura de São Paulo. Estamos ainda nos primeiros passos, procurando colaboradores e com a esperança de que os moradores da cidade e aqueles de fora dela possam vivenciá-la ativamente e contribuir com a construção de uma cidade mais justa e que valorize suas próprias memórias.

*Danilo da Costa Morcelli é bacharel em Gestão Ambiental pela Escola de Artes Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e Mestre em Ciências, pelo programa de Mudança Social e Participação Política da EACH-USP. Atua desde 2012 no Grupo de Memória da Zona Leste de São Paulo.

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