Realidade segregada de SP é aumentada em Pokémon GO

Texto por Gisele Brito*. Mapeamentos por Pedro Mendonça**

Lançado no Brasil há pouco mais de um mês, o Pokémon GO instantaneamente virou febre. O jogo consiste em uma experiência de realidade aumentada que mistura o mundo virtual a imagens reais capturadas a partir da câmera do celular. Esses dois ambientes são conectados através de geolocalização e simulam a aparição de Pokémons no local onde o usuário realmente está. Além das questões técnicas e da paixão que envolve os personagens, o game foi aclamado por incentivar a caminhada e utilização das ruas, praças e equipamentos públicos e privados. Mas a discussão sobre sua relação com a cidade vai muito além disso.

Um dos aspectos que provocou polêmica, entre usuários e não usuários, diz respeito à sua relação com a desigualdade territorial na cidade de São Paulo. Amantes da saga reclamam em fóruns e nas redes sociais sobre a pouca oferta de recursos essenciais para a dinâmica do jogo, como Pokémons, PokéStops e Ginásios, em regiões periféricas, que concentram a população de menor renda.

A polêmica em torno da aparente discriminação territorial fez com que pessoas saíssem em defesa da desenvolvedora do jogo, a Niantic, sustentando que a empresa não teria responsabilidade sobre a suposta segregação de classes. O argumento deles é que a localização das infraestruturas do game foi definida seguindo o mapeamento de um jogo anterior, o Ingress, em que os próprios usuários eram responsáveis por indicar as chamadas áreas de interesse, que depois se transformaram em PokéStops e Ginásios.

Não há indícios de que a privilegiar determinados territórios a partir de características de renda tenha sido uma ação deliberada dos programadores, mas, independentemente disso, o Pokémon GO expressa essa desigualdade, estruturante em São Paulo e na maioria das cidades brasileiras. Assim como as condições de urbanidade em geral, quanto mais afastada das centralidades de alta renda, menor a disponibilidade e pior a qualidade dos Pokémons. Esse fato é importante porque a ideia central do jogo consiste no aprimoramento dos monstrinhos, o que ocorre quando eles são “treinados” – conquistando mais da mesma espécie, disputando batalhas nos chamados “Ginásios”, entre outras coisas. Além disso, possuir Pokémons raros, geralmente mais fortes ou com habilidades únicas, além de significar ter um trunfo na manga para as próximas batalhas, garante pontos que ampliam as possibilidades de conquistar ainda mais monstrinhos.

Mas são os Rattatas, Pidgeys e Zubats, considerados pragas dentro da lógica do jogo, que abundam nas periferias, enquanto Mewtwo, por exemplo, o Pokémon mais poderoso, é quase impossível de ser achado nesses regiões. Por serem fracos e com poucas possibilidades de evolução, os Pokémons predominantes nas periferias deixam os jogadores em desvantagem quando desafiados. Nas demais regiões, eles também são maioria, mas dividem espaço com Pokémons mais qualificados, como o famoso Pikachu. Para ter Pokémons melhores, frequentemente os moradores das periferias precisam se deslocar mais, lógica semelhante à da busca pelo acesso a boas escolas, hospitais e oportunidades de trabalho.

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Zubat, Pidgey e Rattata, pragas no jogo mimetizam características de pragas urbanas

Ou seja, o jogo evidencia algo já bem conhecido de estudiosos do tema urbano e daqueles que vivenciam na pele os efeitos da segregação: a concentração histórica de melhores condições urbanas, de infraestrutura e oportunidades sociais e culturais no quadrante sudoeste da capital paulista, local onde há também maior concentração de renda. É nessa região onde estão a maior parte dos equipamentos culturais e a melhor rede de infraestrutura viária para transporte individual e coletivo, o que promove pontos de grande concentração e circulação de pessoas, além dos empregos com maior remuneração e a maior quantidade e qualidade de prestação de serviços de todo tipo, legitimados no jogo como “pontos de interesse”. Assim, os elementos que constituem o jogo se inserem e fortalecem essa lógica desigual. Os mapeamentos que ilustram este texto mostram como a distribuição das infraestruturas do jogo se sobrepõe ao da distribuição de equipamentos públicos e privados e do sistema viário localizados no quadrante sudoeste.

O urbanista e professor da USP Flávio Villaça explica que a concentração da infraestrutura urbana garante às classes de mais alta renda as melhores localizações, verdadeiro fruto do trabalho humano na produção das cidades. Ao dominar essas localizações, essas classes aumentam o controle sobre o tempo, através da economia de deslocamentos. Segundo o autor, “o controle do tempo de deslocamento é a força mais poderosa que atua sobre a produção do espaço urbano como um todo, ou seja, sobre a forma de distribuição da população e seus locais de trabalho, compras, serviços, lazer, etc.”.

Por trás da tentativa de responsabilizar os jogadores/moradores das periferias pelo não mapeamento de áreas de interesse nesses territórios há dois elementos. O primeiro é a própria escassez de equipamentos institucionalizados de interesse histórico, social e cultural. O segundo é a ideologia hegemônica, que não reconhece esses territórios e que transmite para a população a mensagem de que aquilo que existe e é produzido nos territórios periféricos não é relevante. No entanto, há sim pontos de atração nas regiões periféricas. Um encontro de ruas, um recuo de calçada ou um terreno baldio cumprem a função da promoção da sociabilidade de praças, se não em todos, em muitos bairros periféricos. Na ausência de investimentos para construção e manutenção de bibliotecas e teatros, praças e centros culturais, as pessoas ressignificam, por exemplo, bares que hoje sediam saraus, reconhecidos localmente como pontos de encontro, de formação, de diálogo e definição de identidades.

Outro argumento usado para explicar a lógica segregacionista do jogo e livrá-lo da pecha de discriminador é que as áreas periféricas seriam lugares perigosos, onde menos pessoas estariam dispostas a correr riscos de sair à rua com celulares à mostra por medo de roubos e furtos. Mais um argumento enviesado sobre as periferias. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, os crimes contra o patrimônio ocorrem mais nas regiões centrais, enquanto os crimes de violência contra a pessoa ocorrem nas regiões periféricas, como pode ser observado no mapa acima, construído com dados de 2015.

A lógica dessa desigualdade urbana, refletida na distribuição dos Pokémons, não é exclusividade de São Paulo. O próprio Flávio Villaça demonstra que se trata de uma lógica estruturante da sociedade brasileira, e que marca todas as cidades brasileiras. No caso do Pokémon GO, há reclamações de usuários de outros países parecidas com as que vemos em São Paulo, especialmente em bairros negros e latinos nos EUA. Além disso, também há uma diferença de quantidade e qualidade dos recursos do jogo entre o Brasil e países do hemisfério sul e nações desenvolvidas, refletindo nossa posição como metrópole na periferia do capitalismo.

Todos os elementos que estruturam o game, os locais de interesse, a concentração de fluxo de pessoas, o próprio tipo de trabalho que habilita uma pessoa a ter mais horas disponíveis para mexer no celular, tudo isso contribui para reforçar a desigualdade implícita no jogo, porque estão ancorados em elementos segregadores na cidade que historicamente garantem o conforto das classes de mais alta renda. Dessa forma, o jogo não apenas reflete, mas ajuda a fortalecer essa desigualdade.

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Bases cartográficas: Emplasa, SMDU, MMA-SP

* Gisele Brito é  jornalista. Em 2013, foi condecorada com o 17ª Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos, promovido pela  Comissão da Defesa dos Direitos da Pessoa Humana da Assembleia Legislativa de São Paulo e com o Prêmio Compromisso com a Superação do Racismo e em Defesa da Igualdade, oferecido pela Afropress. Atualmente é bolsista do ObservaSP.

**Pedro Mendonça é graduando em Arquitetura e Urbanismo na FAUUSP. Estuda parcerias público-privadas utilizadas como instrumento para implementação de projetos urbanos, especialmente as PPPs Habitacionais do estado de São Paulo. Integra a equipe do ObservaSP desde 2015.

 

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6 comentários sobre “Realidade segregada de SP é aumentada em Pokémon GO

  1. Eu concordo com quase todos os pontos do texto, mas acho que, em outros, não reflete a realidade do jogo.
    Em São Paulo, o único lugar realmente bom pra jogar Pokémon Go é o Parque do Ibirapuera. Bairros nobres, como Perdizes, Higienópolis, Pinheiros, Vila Mariana, Morumbi, Aclimação, Vila Madalena e Vila Olímpia praticamente só têm as “pragas”.
    Ou seja, nesse caso, pessoas da cidade inteira (e até de fora dela), são obrigadas a irem até o Parque.
    E qual o motivo pro Parque ser esse ponto de encontro? Além de ser um lugar arborizado e que oferece a possibilidade de ficar sentado e até deitado, os jogadores ficam concentrados ao redor do Planetário, onde tem aproximadamente 6 Pokéstops (pontos que atraem Pokémons), e esta não é uma quantidade muito diferente do que pode ser encontrado em áreas mais afastadas. A questão é que lá, por ter o lago, aparecem algumas espécies aquáticas, que são as mais procuradas pelos jogadores (Magikarp e Dratini). Pra além disso, estas espécies aparecem com maior frequência porque lá tem muita gente (de 100 a 300 pessoas, sempre), e é justamente a quantidade de pessoas que influencia na frequência da aparição dos Pokemóns.
    Dessa forma, se os jogadores (que são, em sua maioria, moradores de bairros que estão fora do centro expandido), combinassem de se encontrar em outros lugares da cidade, estes poderiam virar novos “points”.
    Um outro fator que eu acho muito relevante é que esses jogadores que vêm da periferia estão se apropriando do Parque, algo que considero muito positivo, e os frequentadores antigos (corredores e ciclistas) estão tendo que se adaptar à nova dinâmica nas redondezas do Planetário.

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  2. “O urbanista e professor da USP Flávio Villaça explica que a concentração da infraestrutura urbana garante às classes de mais alta renda as melhores localizações”
    Isso é só mais uma falsificação. A infraestrutura urbana é construída pelo lobby dos grupos mais abastados, ou os grupos mais abastados que se mudam para onde há mais infraestrutura?
    O segundo caso parece muito mais factível que o primeiro.

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    • A teoria de Flavio Villaça é profunda pois justamente demonstra que são AMBOS os casos: o lobby dos ricos faz a infra perto de onde mora, e mora perto de onde há infra. E, portanto, como demonstra Flavio em diversas capitais, historicamente, o eixo de riqueza vai se expandindo ao longo da história em uma direção específica, que é o eixo de riqueza. No caso de São Paulo, seria Centro Histórico> Av. Paulista > Av. Faria Lima / Berrini.

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    • “A infraestrutura urbana é construída pelo lobby dos grupos mais abastados, ou os grupos mais abastados que se mudam para onde há mais infraestrutura?
      O segundo caso parece muito mais factível que o primeiro.”
      E para os grupos mais abastados se mudarem para onde há infraestrutura, a infraestrutura tem que existir previamente, caso contrário não iriam para lá, e quem elaborou essa infraestrutura prévia? outros grupos mais abastados, numa reprodução continua do ciclo de acumulação e concentração de capital e todas as benesses advindas disso.

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  3. Os ginásios e pokestop foram criados nos lugares que são portais no jogo ingress também na niantics. Esses portais eram criados pelos próprios usuários até setembro de 2015 quando foi bloqueado a criação de novos portais. Há de se considerar que o jogo ingress existe há uns 4 anos usando o mesmo conceito da realidade aumentada e a necessidade de se locomover pela cidade para jogar e a questão do poder aquisitivo de aparelhos compatíveis com essa tecnologia desde 4 anos atrás e também o interesse pela proposta do jogo ingress. Moro no interior de São Paulo e aqui mau temos pokestop, e como sou antigo jogador do ingress, sei que isso se deve ao fato que por aqui, poucas pessoas se interessaram em jogar, por tanto, poucos portais foram criados, a maioria na região central devido ao maior fluxo de pessoas, como o jogo não evoluiu aqui, refletiu no pokemon go, cidades vizinhas onde não havia nenhum jogador do ingress, hoje não possui nenhum pokestop ou ginásio.

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  4. imagina, eu moro no arouche e aqui so tem praga. preciso sair daqui pra achar pokemons melhores… conheci um cara q mora em m´ boi mirim estes dias, jogando na sé, e fazia uma semana q ele tinha pokemon e ja tinha todos os lendários e raros e tava no nivel 16. perguntei onde ele pegou aquilo tudo.. e ele me disse, na rua de casa!

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